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o kit e os efeitos:
A partir do kit ” performance autobiográfica ” escolhido na máquina/trabalho artístico ” Vending Machine “, de Carolina Mendonça e Tainá Azeredo, decidi aproveitar o próprio espaço da galeria Vermelho para criar uma performance com os elementos que me foram oferecidos: um pouco de areia branca, um pedaço de barbante e algumas fotos aparentemente antigas.
No segundo andar, num espaço não ocupado com trabalho nenhum, sentei-me numa cadeira, tirei meus tênis ( ficando descalço ) e abri o saquinho de papel que continha os elementos para a construção do trabalho. Primeiro, peguei o barbante e amarrei meus dois pés a fim de deixá-los unidos. Em seguida, joguei calmamente a areia branca no chão. Assim, comecei a fazer movimentos circulares no sentido horário com os dois pés unidos pelo barbante. Enquanto fazia isso, retirei as fotografias do saquinho de papel e, com todas em mãos, fui vendo uma a uma, repetidamente. E assim seguia-se a performance: os pés amarrados fazendo movimentos circulares na areia enquanto eu observava as imagens.
Para mim, era como um ritual de lembranças onde o ponto de partida eram as fotografias. Mesmo não sendo minhas, as fotos eram alvo de projeções de lembraças que eu já tinha, que gostaria de ter e que eram suscitadas pelas imagens oferecidas. Eu apenas parava o movimento dos pés quando via uma determinada foto: a de uma senhora dentro da paisagem. Era a única foto que havia uma figura humana. Em meio a tantas paisagens que lembravam fotos de viagem, eis que surge a figura humana como elemento dissonante no conjunto, auto-afirmando sua presença naqueles momentos congelados.
E, para mim, fora da situação, a figura humana era a lembrança de alguém especial para ser lembrado a partir do registro fotográfico. A fotografia pedia essa lembrança e a dissonância causada pela figura da senhora dentro do todo de paisagens pedia uma ação especial: a pausa nos movimentos dos pés e maior tempo de observação para essa foto, reforçando a sensação de lembrança e de ” especialidade ” daquela foto.
Esse ritual de lembranças e recordações durou aproximadamente 45 minutos, tempo suficiente para, por meio da performance, vivênciar todo um passado, uma história que cada um de nós carrega e que pode ser revisitada de várias maneiras, inclusive partindo de registros verbais, escritos, imagéticos etc da história de outras pessoas.
Por fim, guardei as fotos no saquinho de papel, desamarrei meus pés e coloquei o pedaço de barbante também no saquinho. A areia foi retirada do chão e colocada, junto com as fotos e o barbamte, dentro do mesmo saco, como se a própria performance tivesse se tornado lembrança a ser guardada também.
No momento, nem pensei em nome para o trabalho, mas minhas duas amigas, Maíra e Merien já haviam feito isso para mim: num papel da programação da mostra Verbo da galeria Vermelho escreveram meu nome ( Davi Flores ) e o título ” Pés de areia “. E assim ficou.
Depois de todo o percurso, fecha-se o ciclo: o incentivo/estímulo, a idéia, o trabalho/ação/intervenção e o batismo do trabalho ( fechando o processo ).


